Um bom uso pra IA: validar um viés de confirmação

Hoje eu estava vendo umas fotos das minhas cachorras enviadas pelo hotelzinho que elas estão enquanto eu estou em Stanford e a Emily viaja a trabalho. Fui acometido por uma súbita preocupação ao imaginar que as elas poderiam esquecer de mim após tanto tempo. 

Em vez de procurar links com conteúdos científicas no Google igual se fazia em 2023, ou seja, há mais de 1.000 anos, eu abri meu app do Claude no computador e perguntei: 

Como os cachorros percebem tempo? Se eu ficar um ano sem ver meus cachorros, quanto tempo passa pra eles? Eles esquecem de mim? Gostam menos de mim?


Escolhi o modo research, aquele que consome uns 400 litros de água potável e aumenta a temperatura global em 1ºC (estou exagerando, mas talvez não muito), para que a pesquisa da IA fosse a mais ampla possível. Claude levou 10 minutos e 50 segundos para pesquisar 268 fontes de informação. Parecem ser fontes boas também, de revistas como Nature e Springer, além de sites do governo.

O relatório ficou bem escrito e recheado de citações acadêmicas e coisas que eu nem queria saber, como cortisol elevado por ansiedade de separação e "loop de feedback positivo de ocitocina". Também validava muitas coisas que eu já tinha ouvido de veterinários, passeadores de cães e adestradores mas mesmo assim queria saber de novo: os cachorros, especialmente com um grande vínculo afetivo, não esquecem seus tutores.

Ora, eu já sabia de tudo isso, mas foi profundamente reconfortante reler coisas como "cães com função cognitiva normal e vínculos fortes não esquecem seus tutores após um ano de separação" e "reuniões após separação prolongada revelam a profundidade e permanência do vínculo cão-humano."

Estou fazendo agora uma aula no departamento de sustentabilidade de Stanford sobre a "ciência da decisão" (decision science), que é basicamente a aplicação de psicologia e estatística para a criação políticas e campanhas a fim de convencer uma parcela da população que é simplesmente imune a fatos e à ciência.

Uma das coisas que estou estudando nessa aula é a chamada "identidade baseada em evidências", que nada mais é do que criar e afirmar uma identidade com base em fatos verificáveis – como pesquisas, estatística ou observações. Eu, como um sujeito permeável a fatos que pode mudar de opinião com base neles em basicamente QUALQUER assunto, li o relatório com muito gosto, porque ele validou não apenas meu conhecimento prévio, mas também minha "identidade".

Tivesse esse relatório contradito as informações anteriores que eu tinha, eu teria que desafiar o consenso científico para dizer que minhas cachorras jamais se esqueceriam de mim, independentemente de qualquer pesquisa publicada em periódicos acadêmicos. Seria um típico caso do que psicólogos chamam de motivated reasoningque mesmo os empiristas e racionalistas mais convictos estão sujeitos.

Lembro-me um vez que um ex-sogro meu, espírita praticante, me disse que animais (cachorros em especial) são motivados apenas por instintos. Ou seja, só sentem coisas como fome, medo e raiva, nunca emoções complexas como amor ou até mesmo capacidades cognitivas como inteligência e compreensão de palavras. Isso vinha encruado na fé dele, e sabemos que a própria função da religião é desconsiderar evidências em troca do conforto provido pela crença.

Pois é, meu amor pelas minhas cachorras é basicamente a minha religião – nesse caso, segundo o Claude, substanciada por fatos (felizmente).

Seja como for, eu não fiz questão de checar nenhuma informação provida por aquele modelo de linguagem, porque eu não estava buscando por respostas, o que eu queria era conforto.

Preguiçosa