Ter um negócio


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Há uns dias tenho pensado sobre o que é criar e manter um negócio, e continuar trabalhando nele. Eu considero isso um emprego, mas já ouvi argumentos de que empreender não é emprego, e sim trabalho. Tanto faz, é uma trabalheira danada.

Eu escuto muito sobre planejamento, sobre business canvas, sobre pesquisas de audiência, sobre ouvir leitores e consumidores, sobre iterar, falhar rápido e barato. Eu já ouvi tudo isso muitas vezes, e preciso admitir que concordo com os argumentos. A gente precisa sim ouvir nossa audiência. Precisamos nos municiar de dados pra levar nosso negócio pra frente. Temos que engajar, crescer, mudar de direção.

Mas tem um bicho na minha cabeça que simplesmente quer fazer coisas. Eu simplesmente tenho ideias e planos que quero tirar do papel, não importa o quanto as pessoas ou o mercado queiram isso. Pressiono por produtos e projetos dentro da minha organização, faço coisas por iniciativa própria, fico de olho no que os outros estão fazendo.

Eu busco fazer coisas novas, sem martelar muito antes o que os outros querem – eu faço o que eu quero. É um privilégio, eu sei – uma mistura de momento na minha carreira, proatividade, conhecimento e, sim, acesso a recursos. Frequentemente dá errado, e nesse caso "falhei rápido e barato" (maioria das vezes joguei fora apenas tempo, um ativo muito precioso).

Mas algumas coisas pra mim valem mais do que outras. Há projetos que eu insisto. O Núcleo mesmo é uma insistência antiga minha, que eu fiz como eu quis, sem muito business canvas.

Eu entendo e apoio a necessidade de planejamento exaustivo de negócios, eu certamente já fiz muito disso. Mas eu vejo muito valor na tenacidade de se fazer o que quer e tentar vender o valor disso depois. Às vezes dá errado, e tudo bem, mas às vezes pode dar certo também. Por mais que a gente queira, às vezes não conseguimos colocar o valor de uma visão, de um entusiasmo em um business canvas.

E as pessoas vão tentar tirar isso de você – é boa parte do que é construir um negócio. Muitos empreendedores bem-sucedidos já foram entortados por feedbacks negativos (às vezes até grosseiros). Às vezes insistiram e deu certo, às vezes foi pras cucuias, faz parte do negócio.

Se alguém me disser que vai abrir uma loja online pra vender meias de lã, que é um sonho, eu vou achar uma péssima ideia – não importa se a pessoa mostrar que o consumidor quer e compra meias de lã. Eu não uso meias de lã, a concorrência deve ser um terror. Mas eu posso muito bem estar errado. E quem sou eu pra dizer que a convicção daquela pessoa está errada? Dá pra contar entusiasmo como dados para um negócio?

Montar um negócio e ser responsável por ele é muito diferente de trabalhar em um negócio. Muitas pessoas trabalham muito para avançar negócios, mas criar algo do zero e apostar tudo em sua sobrevivência exige um tipo de comprometimento, aceitação de risco e, sinceramente, que não são quantificáveis a partir de pesquisas de mercado e ferramentas de avaliação de negócios. Como uma pessoa agnóstica, acho difícil eu falar de fé, mas é o melhor termo – bem melhor que sonho (credo).

Por bem ou por mal, eu tenho tocado meu negócio há 12 anos. Tive muitos fracassos e decepções. Certamente não fiquei rico, nem é esse meu objetivo. A única coisa que eu tiro disso tudo é que planejamento de negócios é uma ferramenta poderosa e importante, mas ela não substitui persistência, teimosia e pirraça (h/t para Kléber Mendonça Filho).

Uma frustração recorrente minha é a tensão entre fazer o que os outros querem ou esperam e perseguir minha visão. É um conflito necessário, útil e produtivo, mas não deixa de me incomodar.

Eu vejo extremo valor em planejar, testar, pesquisar, iterar, prototipar, coletar dados, impressões, feedbacks. Eu sou um cara dos dados, da ciência. Mas eu não consigo abandonar a minha visão para o jornalismo a fim de encaixá-la em algum modelo de negócios que faz sentido apenas a partir de dados – sim, eu sei, vai contra minha própria natureza. Talvez se um dia eu for vender meias pela internet eu consiga fazer isso com mais naturalidade.