Ser burro em outro idioma
Não é minha primeira vez passando uma temporada fora do Brasil, mas novamente me sinto na capacidade de ser burro em outra língua. Parece que minhas destrezas verbal e motora (que já não são grande coisa) simplesmente me abandonaram. Eu balbucio na hora de falar, eu erro caminhos, ando de bicicleta igual uma criança.
Não ajuda o fato de que muita coisa é diferente. Tipo abastecer o carro. Aluguei um Nissan Altima, que era o mais barato disponível, para fazer uns corres e resolver coisas da casa. Nenhum brasileiro está preparado para abastecer um carro nos EUA. Nenhum. Enquanto no Brasil usamos o sistema de serviço, no qual um frentista enche seu tanque, nos EUA você precisa fazer sozinho. Tudo bem, justo, mas fazer isso sem prática pode levar o funcionário do posto de gasolina a xingar você por ter colocado o carro do lado errado da bomba de gasolina.
Também teve a vez que eu, além de esquecer de dar a gorjeta, eu esqueci meu cartão dentro daqueles caderninhos de restaurante, e a garçonete veio correndo me devolver no estacionamento. Só depois me toquei que não deixei gorjeta – to acostumado a pagar o que está na conta, não foi por mal.
Em alguns lugares não dá pra comprar cerveja, eles pedem ID pra todo mundo e dane-se você se sair sem seu passaporte. Outro dia na Target peguei uma caixa de Sierra Nevada e mesmo tendo 40 anos com corpo de 50 eu saí de mãos vazias, pois estava munido apenas de cartão.
Enfim, são essas pequenas coisas (há bem mais exemplos) que me fazem sentir meio burro enquanto me adapto à vida aqui.
Em São Paulo, minha vida é funcional: conheço os caminhos, as pessoas e os lugares. Mas aqui, minha inexperiência com o cotidiano local é patente, as pessoas vêem na minha cara ou quando eu puxo uma porta que diz pull. Toda minha confiança em território paulistano, pelo menos num primeiro momento, foi substituída pela mais humilde força de vontade de passar um dia sem fazer merda.
Não tá ruim, mas é curioso ver como nossa capacidade regride um pouco num lugar totalmente novo.
É white people problem, eu sei, mas é problem mesmo assim.