Grandes novelões mexicanos/brasileiros
Lembro-me de quando assisti à série The Killing (2011-2014), que até hoje é uma das melhores coisas que eu já vi. O ritmo lento, às vezes até meio sonífero, sentia como algo novo, refrescante, inusitado. A primeira temporada trata de apenas um assassinato, e da obsessão da protagonista em solucioná-lo – muito diferente de outras sérias nas quais tudo acontece o tempo todo, com todo mundo, e todos estão envolvidos em tudo, o tempo todo (redundância proposital).
As novelas da Globo e os novelões mexicanos se arrastam por meses e trazem muitas reviravoltas dramáticas, e talvez por isso eu nunca tenha gostado de novela. Afinal, quantas emoções ininterruptas cabem numa sequência de dias (se bem que pelo noticiário político, muitas)?
Tenho sentido que, após anos de séries primorosas como The Killing, Sopranos, The Wire, Breaking Bad, Better Call Saul, e até coisas mais recentes como Task, as quais seguram o passo dramático para acrescentar camadas de realismo e comedimento, muitas das novas séries norte-americanas agora viraram grandes novelões, que precisam de uma carga excessiva de drama e reviravoltas constantes para prender a atenção das pessoas.
Outro dia assisti a His & Hers – um grande novelão. Stranger Things – novelão. Game of Thrones – grande novelão. E o maior novelão de todos que assisti recentemente: All Her Fault. Como pode tanta coisa interconectada acontecer com tantas pessoas em tão pouco tempo? Achei interessantes os pontos sobre maridos dependentes de esposas e sobre carreiras de mães durante a maternidade, mas a quantidade de catástrofes simultâneas dessa série é risível, chegou um momento em que eu literalmente fui forçado a dar risada mesmo sendo uma cena trágica.
Mais do que antes, a indústria de streaming, ao meu ver, tem deliberadamente preferido perder qualidade e manter o espectador sempre surpreso e entretido a construir narrativas plausíveis e espaçadas, dando tempo pras pessoas criarem mapas mentais. É por isso que eu gosto muito dos filmes do Chris Nolan e das séries do Vince Gilligan, cujos desenvolvimentos de histórias e personagens demoram um tempão, exigem atenção e demandam interesse de quem assiste.
A questão não é gostar de novelões ou não – gosto de alguns e desgosto de outros. Eles sempre existiram e vão continuar existindo. A questão é que a época de ouro do drama televisivo parece estar chegando ao fim, e o que sobra são apenas conteúdos para preencher espaços em nossos dias.