Recentemente acabei de ler o livro "Um dia todos dirão terem sido contra", de Omar el Akkad. É um baita livro, de verdade, misturando uma escrita bem amarrada de história pessoal e ensaio político.
Eu não sou crítico literário, então não vou expandir sobre traços estilísticos nem técnicos dessa obra, mas a verdade é que Akkad, como jornalista, foi bem corajoso em apontar a hipocrisia da mídia a respeito do massacre de palestinos em Gaza pelo Estado de Israel e chamar do que realmente foi na prática: um genocídio. E engana-se quem acha que ele passa pano pro massacre do outro lado, do Hamas, que matou centenas de israelenses inocentes.
Mas a verdade é Akkad, na minha opinião, mais ainda do que denunciar massacres de seres humanos, critica a normalização de massacres e tragédias dentro das sociedades ocidentais, especificamente a norte-americana. Com algum exercício mental, também é possível transpor para o Brasil e outros países dessa região.
Em troca de conveniência e progresso econômico-tecnológico, diz ele, a sociedade ampla, estimulada pela mídia, plataformas digitais e retórica política está disposta a minimizar sofrimento e miséria a fim de manter um senso de normalidade. Mentimos para nós mesmos, sabemos da mentira e ainda assim a aceitamos.
Em entrevista à Quatro Cinco Um, ele chama isso de privilégio de poder desviar o olhar.
Penso em alguém cuja capacidade de alienação lhe permitiu ignorar o abismo entre a forma como realmente se comporta no mundo e como deseja ser visto. Especialmente nos Estados Unidos, onde há um liberalismo convencional por excelência, há sempre um elemento de polidez e civilidade e um sentido de profunda preocupação com o abstrato acompanhados por uma ausência real de preocupação com o que o país faz no mundo, com seres humanos do outro lado do planeta sendo aniquilados por mísseis que paguei com meus impostos. Por isso, sempre retorno a essa noção da capacidade de desviar o olhar do abismo entre quem se é e como se deseja ser percebido.
Brutal, recomendo a leitura da entrevista feita por Suzana Velasco.
Um grande exemplo disso, pra mim, diz respeito à Copa do Mundo de 2026 e do terremoto na Venezuela em 24 de junho, o qual já registrou quase 20 mil mortos confirmados até agora, com muito mais desaparecidos e desabrigados. A imprensa cobriu sim, e frequentemente muito bem (inclusive essa boa reportagem da AFP sobre cachorros socorristas).
Mas o mundo segue, e, com as atenções voltadas pra Copa e outros temas de política internacional (importantes, sem dúvida), a cobertura da catástrofe venezuelana tem sido colocada em segundo ou terceiro plano em boa parte do mundo, jogada para baixo nos sites dos jornais e das emissoras.