As sutilezas de The Rover

Eu já vi o filme The Rover duas vezes – uma perto do lançamento, em 2014, e outra no começo da pandemia.

A primeira vez que assisti foi algo normal: o desenrolar da história de um homem sem esperança (Eric) que atravessa o deserto australiano em busca dos caras que roubaram seu carro, o qual tinha no porta-malas seu falecido cachorro (algo que só fica claro literalmente na última cena do filme).

A segunda vez eu prestei mais atenção nos outros personagens. Ficou mais claro pra mim, por exemplo, que Henry e Rey estavam hospedados com a avó antes – até por isso que Eric e Rey se encontram. Também consegui visualizar melhor o contexto niilista do filme, que não dá muitos detalhes mas deixa claramente visível o cenário de terra arrasada e falta de recursos do sertão australiano.

Mas essa terceira vez (vi de novo ontem) foi a que me pegou mais. Dessa vez eu comecei a perceber as sutilezas de um personagem que não aparece: o cachorro de Eric. São poucas as referências a ele, tanto que eu não captei imediatamente nas primeiras vezes (não por não lembrar, mas por dedicar minha atenção a outro lugar).

Mesmo com a obstinação de Eric em recuperar seu carro, notei que ele poderia simplesmente ter utilizado a caminhonete para bater em seu carro e forçar um acidente na perseguição inicial. Se vingança fosse tudo o que ele quisesse, daria pra fazer isso. Mas ele sequer encosta no carro da frente. Ele não queria danificar o corpo do cachorro.

No episódio na casa da médica, ele fica visivelmente comovido ao ver os cachorros dela. Eu tinha notado isso antes, e talvez até inconscientemente feito essa associação, mas nunca tinha deliberadamente notado isso como uma pista (quem não gosta de cachorro, né?).

Mas talvez a parte mais notável de todas esteja na hora que ele vai comprar a arma. Quando o anão joga uma pedra nos cachorros, o incômodo dele é visível, e percebe-se que a paciência dele com o anão acabou logo no começo da negociação.

Eric fez coisas horrorosas ao longo do filme, injustificáveis. Mesmo assim, considero que esse seja um filme sobre o amor de um humano por seu cachorro, por pior que esse humano seja.