A vida online não olha para trás

Eu detesto ser um cara que olha pra trás e acha que o passado é melhor do que o presente. Na real, eu acho o contrário: a gente como civilização melhorou demais em comparação com o que era antes. Quando você para pra olhar o gráfico da expectativa de vida no mundo, e como ele cresceu no último século, é difícil achar que as coisas não melhoraram.

Uploaded image

No entanto, estar melhor não quer dizer que está bom. Se antes nosso problema era morrer aos 32 anos de febre amarela ou de fibrose pulmonar por trabalhar duas décadas em uma mina de carvão, agora a gente enfrenta uma briga diferente, mais sutil, mas que é muito condizente com os avanços tecnológicos dos últimos 20 anos. 

Eu vejo uma batalha de busca por atenção, de excesso de telas e, principalmente, de decadência da complexidade e longevidade da informação. Poucas são as coisas que significam alguma coisa por mais de alguns dias. 

Vi outro dia uma grande tragédia na televisão, com uma enorme repercussão online, e dias depois era como se nada tivesse acontecido. Sumiu dos sites, das timelines, das TVs, das conversas. Nada perdura como antes na sociedade digitalizada.

Não sei se isso é bom ou ruim, mas sei que me afeta um pouco. Fica difícil ser jornalista e ter algum impacto no mundo se projetos e reportagens que eu passo meses trabalhando vão expirar em dias.

As coisas nas nossas vidas têm repercussões maiores, mais longas. Eu vejo pessoas que, independentemente de quão cedo o mundo esquece das coisas, continuam lembrando do passado. Eu mesmo sinto muita falta do Sabugo, que se foi há meses, e essa saudade ainda me assombra. Outro dia passei na frente de Habibs e lembrei de quando levei uma comida de lá pra ele. Sinto falta da minha avó, que se foi, e dos meus primos com os quais pouco converso esses dias.

O que me pega pra valer nessa dinâmica de redes sociais, de WhatsApp incessante, de comunicação constante com amigos, sócios, clientes, de barulho implacável não é ficar sobrecarregado com a avalanche de informações, e sim de ter medo de continuar olhando pra trás quando todo o bonde já seguiu em frente, de varrer alguns acontecimentos e sentimentos pra baixo do tapete.

Mas ainda acho que resistimos todos. Os excessos de comunicação empurram a massa comunicacional sempre pra frente, isso sem dúvida, mas pelo menos por enquanto o indivíduo ainda consegue olhar pra trás.