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Às vezes eu paro para pensar se é razoável que eu ainda sinta muito a perda do Sabugo, um ano depois dele ter falecido. É um sentimento que não vai embora, a ponto de ser difícil falar sobre ele, ver fotos e até mesmo escrever este texto sem que as lágrimas brotem nos meus olhos.

Eu imagino que não seja razoável. Me recordo de quando minha avó, uma das pessoas que eu mais amava no mundo, faleceu, em 2022. Não demorou tanto para que eu conseguisse falar dela, seguir em frente. Entendi a partida dela como uma vida plena, bem vivida, e que chegara ao fim como consequência da natureza, e isso me ajudou a aceitar sua partida e celebrar sua vida. Objetivamente, a mesma coisa poderia ser dita do Sabugo, mas alguma coisa ainda me retém em certa tristeza de lembrar aquele cachorro tão complexo e vivaz.

Eu me questiono como seria mais fácil simplesmente desprezar esse luto exagerado e desnecessário. Aguardo ansioso pelo momento em que vou me lembrar dele pelas fotos no meu celular e no porta-retrato, e ter apenas um sentimento quente de saudade em vez do vazio da perda. O próprio fato de me apegar à sua memória me fez sair da cama à 1h da manhã para escrever este texto, preocupado que eu poderia esquecer de escrevê-lo mais tarde (eu não poderia).

Um dia desses fiquei sabendo que um amigo meu perdeu o cachorro. Fui tomado de súbito por preocupação com esse amigo – há cumplicidade na perda. Outro dia, num festival de cultura indígena a que fui, acariciei um pequeno pinscher de 19 anos, enrolado num sling de tecido, apertado no peito de seu dono. Senti uma pequena inveja daquela cena, embora o Sabugo fosse um cachorro relativamente grande para um sling.

Meses de profundas ponderações me revelaram que a partida do Sabugo aprofundou a compreensão de que minhas amadas meninas encontrarão esse destino daqui a alguns anos, sem que seja possível eu estar preparado. É o inadiável, breve e doloroso ciclo da vida.

Mas, principalmente, aquele 17 de fevereiro de 2025 me acordou para a compreensão de como os cachorros amam seus humanos, e como isso se reflete de volta para eles, pelo menos no meu caso. No começo, meu luto era pela situação física do Sabugo, por sua dor, por sua luta e, em última instância, por seu falecimento.

Agora, um ano depois, a perda que eu sinto é daqueles olhos que sempre brilhavam olhando pra mim ou pro meu pai, do choro dele implorando para entrar dentro de casa, da cara de vergonha quando roubava comida ou do rabo balançando quando eu colocava comida caseira feita pra ele.

Eu vi ele perder esse brilho nos últimos dias de vida, e isso foi bem triste pra mim. Eu só espero que ele saiba que não estava sozinho.

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Sabugo - 04/02/2025